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Profissional especializado em Atividade Física, Saúde e Qualidade de Vida. Sérgio Nunes e sua empresa QualiFis, pretendem desenvolver junto aos seus alunos e clientes a ideia da verdadeira Saúde, que obviamente não é apenas a ausência de doença, mas também o Encantamento com a Vida, dotando-os de um entendimento adequado de se Priorizar, de compreender que vale a pena Investir no seu Potencial de Ser, através do investimento na melhoria da Qualidade de Vida, aprimorando a saúde e usando como meio, a Atividade Física, em suas mais diferentes possibilidades.

“As informações, dicas e sugestões contidas nesse blog têm caráter meramente informativo, e não substituem o aconselhamento individual e o acompanhamento de médicos, nutricionistas, psicólogos e profissionais de educação física.”

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sábado, 8 de agosto de 2026

Quando o Medo de se Mexer Alimenta a Dor



Por que, em muitos casos, voltar a movimentar o corpo pode ser parte importante do caminho para viver melhor ?
    Quando alguma parte do nosso corpo dói, a primeira reação costuma ser proteger aquela região. Paramos de fazer determinados movimentos, evitamos carregar peso, diminuímos as atividades e, muitas vezes, começamos a pensar: “É melhor não mexer para não piorar.” Em uma lesão recente, esse cuidado pode ser importante. O problema aparece quando a dor permanece por semanas ou meses e a proteção deixa de ser uma estratégia temporária para se transformar em medo. A pessoa passa a evitar cada vez mais movimentos, exercícios e até atividades simples do cotidiano. E aí pode surgir um paradoxo: quanto menos ela se movimenta por medo da dor, mais limitada e insegura pode ficar para se movimentar. Esse fenômeno é conhecido como cinesiofobia, ou medo excessivo de se movimentar por acreditar que o movimento vai provocar dor ou causar uma nova lesão.

    E aqui está uma das descobertas mais interessantes da ciência da dor: sentir dor não significa necessariamente que o corpo esteja sofrendo uma nova lesão a cada movimento. A dor não é simplesmente um alarme de dano Durante muito tempo, imaginamos a dor como uma espécie de alarme: existe uma lesão, o alarme dispara; a lesão melhora, o alarme desliga. Só que não é tão simples.

    A dor é produzida pelo sistema nervoso a partir de uma combinação de informações. O cérebro recebe sinais do corpo, mas também considera experiências anteriores, expectativas, emoções, nível de estresse, sono, contexto e sensação de ameaça. É por isso que duas pessoas podem apresentar alterações físicas semelhantes e experimentar dores completamente diferentes. Em algumas situações de dor persistente, o sistema nervoso pode ficar mais sensível. É como se o volume do alarme estivesse alto demais. Um estímulo que antes seria percebido como pouco importante pode passar a ser interpretado como ameaçador. Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode continuar sentindo dor mesmo depois de o problema inicial ter melhorado. 

    Mas existe outro componente importante nessa história: o comportamento. Imagine alguém que sente dor ao agachar. Na primeira vez, decide evitar o movimento. Depois evita subir escadas. Mais tarde, deixa de caminhar, reduz as atividades domésticas e abandona o exercício. O corpo vai perdendo capacidade. Músculos ficam menos condicionados, movimentos tornam-se menos familiares, a confiança diminui e a pessoa passa a prestar ainda mais atenção a qualquer sensação diferente. 

    O resultado pode ser um círculo difícil de romper: dor → medo → menos movimento → perda de condicionamento → mais insegurança → maior sensibilidade → mais dor. É o chamado ciclo de medo e evitação. Embora não explique todos os casos de dor persistente, ele ajuda a compreender por que o medo do movimento pode aumentar a incapacidade e dificultar a recuperação. E é justamente aí que o movimento pode entrar como aliado 

    A boa notícia é que o sistema nervoso também pode aprender novas respostas. Se o cérebro é capaz de aumentar sua percepção de ameaça, ele também pode aprender, por meio de experiências seguras, que determinado movimento não representa o perigo que imaginava. É aí que o exercício ganha uma importância que vai muito além de simplesmente “fortalecer os músculos”. Movimentar-se regularmente pode ajudar a melhorar a capacidade física, o humor, o sono, a confiança e a tolerância aos esforços. Também existem mecanismos pelos quais o próprio exercício pode reduzir a sensibilidade à dor, fenômeno conhecido como hipoalgesia induzida pelo exercício. Pesquisas recentes indicam que diferentes formas de exercício podem produzir efeitos positivos em pessoas com dores musculoesqueléticas persistentes e influenciar mecanismos relacionados à sensibilização do sistema nervoso. Isso não significa que exista um exercício mágico para acabar com a dor. Nem significa que alguém com dor deva simplesmente “aguentar” e continuar treinando como se nada estivesse acontecendo. Significa aprender novamente a se movimentar. Não é vencer a dor na marra Esse talvez seja um dos pontos mais importantes. Retomar o movimento não significa ignorar a dor, tampouco transformar o exercício em um teste de resistência. Em muitos casos, o caminho é progressivo: começar com movimentos que a pessoa consegue realizar com segurança, recuperar confiança, aumentar gradualmente a dificuldade e voltar, pouco a pouco, às atividades que foram abandonadas. É uma espécie de conversa entre o corpo e o cérebro. “Eu consigo fazer isso.” “Posso me movimentar sem me machucar.” “Meu corpo é capaz.” Cada experiência positiva ajuda a reconstruir a confiança. Por isso, estratégias como educação sobre dor, exercícios individualizados e exposição gradual aos movimentos que provocam medo são utilizadas no tratamento de algumas condições de dor persistente. 

    A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, recomenda programas de exercício e educação como parte do cuidado não cirúrgico da dor lombar crônica e das condroartroses (artrose/osteoartrite), dentro de uma abordagem individualizada e integrada. Movimento não é apenas exercício Existe ainda um erro comum: imaginar que combater a dor exige necessariamente entrar em uma academia ou realizar um programa sofisticado de treinamento. Nem sempre! Caminhar, levantar-se mais vezes durante o dia, brincar com os filhos ou netos, cuidar do jardim, subir alguns degraus, dançar, pedalar, nadar, fazer exercícios de força com o próprio corpo ou simplesmente interromper longos períodos sentado e, eventualmente ao longo do dia, realizar algum movimento mais intenso por alguns minutos (Snaks Exercises), também são formas de se exercitar. Para alguém que passou meses evitando atividades, voltar a caminhar alguns minutos pode representar uma enorme vitória. Depois podem vir mais alguns minutos. Depois uma pequena subida. Depois um exercício de força. E assim, pouco a pouco, o corpo recupera capacidade e a pessoa recupera autonomia.

    É importante lembrar, porém, que nem toda dor deve ser enfrentada apenas com exercício. Dores novas, intensas, progressivas ou acompanhadas de outros sinais precisam de avaliação adequada. E pessoas com lesões, doenças ou condições específicas devem receber orientação profissional para definir o que é seguro e apropriado. O corpo precisa de movimento — inclusive quando dói Talvez a maior contribuição da ciência moderna da dor seja justamente nos fazer abandonar duas ideias extremas. A primeira é pensar que toda dor significa necessariamente dano. A segunda é acreditar que qualquer dor deve ser ignorada. Nenhuma das duas é verdadeira. A dor é real. Deve ser respeitada e investigada quando necessário. Mas, em muitas situações de dor persistente, o medo de se movimentar pode acabar sendo tão limitante quanto a própria dor. E quanto mais tempo passamos parados, mais difícil pode parecer voltar.

    Por isso, a pergunta talvez não deva ser apenas: “O que posso fazer para a dor desaparecer?” Mas também: “O que consigo fazer hoje para recuperar um pouco da minha capacidade de me movimentar?” Pode ser uma caminhada curta. Alguns exercícios. Uma atividade doméstica. Brincar. Alongar-se. Subir escadas. Levantar-se mais vezes durante o dia. O importante é começar — dentro dos limites de segurança e, quando necessário, com orientação profissional. Porque movimento não é apenas uma maneira de gastar calorias, ganhar força ou melhorar o condicionamento físico. Movimento é também uma mensagem. Uma mensagem enviada ao cérebro de que o corpo continua capaz. E, para quem vive com dor persistente, talvez essa seja uma das mensagens mais importantes que podemos reaprender a transmitir: “Eu não preciso ter medo de todo movimento. Meu corpo ainda pode se mover, se adaptar e recuperar sua confiança.” A dor pode fazer parte da história. Mas ela não precisa ser o ponto final.


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