Por que, em muitos casos, voltar a movimentar o corpo pode ser parte
importante do caminho para viver melhor ?
Quando alguma parte do nosso corpo dói, a primeira reação costuma ser proteger
aquela região. Paramos de fazer determinados movimentos, evitamos carregar peso,
diminuímos as atividades e, muitas vezes, começamos a pensar: “É melhor não
mexer para não piorar.” Em uma lesão recente, esse cuidado pode ser importante.
O problema aparece quando a dor permanece por semanas ou meses e a proteção
deixa de ser uma estratégia temporária para se transformar em medo. A pessoa
passa a evitar cada vez mais movimentos, exercícios e até atividades simples do
cotidiano. E aí pode surgir um paradoxo: quanto menos ela se movimenta por medo
da dor, mais limitada e insegura pode ficar para se movimentar. Esse fenômeno é
conhecido como cinesiofobia, ou medo excessivo de se movimentar por acreditar
que o movimento vai provocar dor ou causar uma nova lesão.
E aqui está uma das
descobertas mais interessantes da ciência da dor: sentir dor não significa
necessariamente que o corpo esteja sofrendo uma nova lesão a cada movimento. A
dor não é simplesmente um alarme de dano Durante muito tempo, imaginamos a dor
como uma espécie de alarme: existe uma lesão, o alarme dispara; a lesão melhora,
o alarme desliga. Só que não é tão simples.
A dor é produzida pelo sistema
nervoso a partir de uma combinação de informações. O cérebro recebe sinais do
corpo, mas também considera experiências anteriores, expectativas, emoções,
nível de estresse, sono, contexto e sensação de ameaça. É por isso que duas
pessoas podem apresentar alterações físicas semelhantes e experimentar dores
completamente diferentes. Em algumas situações de dor persistente, o sistema
nervoso pode ficar mais sensível. É como se o volume do alarme estivesse alto
demais. Um estímulo que antes seria percebido como pouco importante pode passar
a ser interpretado como ameaçador. Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode
continuar sentindo dor mesmo depois de o problema inicial ter melhorado.
Mas
existe outro componente importante nessa história: o comportamento. Imagine
alguém que sente dor ao agachar. Na primeira vez, decide evitar o movimento.
Depois evita subir escadas. Mais tarde, deixa de caminhar, reduz as atividades
domésticas e abandona o exercício. O corpo vai perdendo capacidade. Músculos
ficam menos condicionados, movimentos tornam-se menos familiares, a confiança
diminui e a pessoa passa a prestar ainda mais atenção a qualquer sensação
diferente.
O resultado pode ser um círculo difícil de romper: dor → medo → menos
movimento → perda de condicionamento → mais insegurança → maior sensibilidade →
mais dor. É o chamado ciclo de medo e evitação. Embora não explique todos os
casos de dor persistente, ele ajuda a compreender por que o medo do movimento
pode aumentar a incapacidade e dificultar a recuperação. E é justamente aí que o
movimento pode entrar como aliado
A boa notícia é que o sistema nervoso também
pode aprender novas respostas. Se o cérebro é capaz de aumentar sua percepção de
ameaça, ele também pode aprender, por meio de experiências seguras, que
determinado movimento não representa o perigo que imaginava. É aí que o
exercício ganha uma importância que vai muito além de simplesmente “fortalecer
os músculos”. Movimentar-se regularmente pode ajudar a melhorar a capacidade
física, o humor, o sono, a confiança e a tolerância aos esforços. Também existem
mecanismos pelos quais o próprio exercício pode reduzir a sensibilidade à dor,
fenômeno conhecido como hipoalgesia induzida pelo exercício. Pesquisas recentes
indicam que diferentes formas de exercício podem produzir efeitos positivos em
pessoas com dores musculoesqueléticas persistentes e influenciar mecanismos
relacionados à sensibilização do sistema nervoso. Isso não significa que exista
um exercício mágico para acabar com a dor. Nem significa que alguém com dor deva
simplesmente “aguentar” e continuar treinando como se nada estivesse
acontecendo. Significa aprender novamente a se movimentar. Não é vencer a dor na
marra Esse talvez seja um dos pontos mais importantes. Retomar o movimento não
significa ignorar a dor, tampouco transformar o exercício em um teste de
resistência. Em muitos casos, o caminho é progressivo: começar com movimentos
que a pessoa consegue realizar com segurança, recuperar confiança, aumentar
gradualmente a dificuldade e voltar, pouco a pouco, às atividades que foram
abandonadas. É uma espécie de conversa entre o corpo e o cérebro. “Eu consigo
fazer isso.” “Posso me movimentar sem me machucar.” “Meu corpo é capaz.” Cada
experiência positiva ajuda a reconstruir a confiança. Por isso, estratégias como
educação sobre dor, exercícios individualizados e exposição gradual aos
movimentos que provocam medo são utilizadas no tratamento de algumas condições
de dor persistente.
A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, recomenda
programas de exercício e educação como parte do cuidado não cirúrgico da dor
lombar crônica e das condroartroses (artrose/osteoartrite), dentro de uma abordagem individualizada e integrada. Movimento
não é apenas exercício Existe ainda um erro comum: imaginar que combater a dor
exige necessariamente entrar em uma academia ou realizar um programa sofisticado
de treinamento. Nem sempre! Caminhar, levantar-se mais vezes durante o dia,
brincar com os filhos ou netos, cuidar do jardim, subir alguns degraus, dançar,
pedalar, nadar, fazer exercícios de força com o próprio corpo ou simplesmente interromper longos
períodos sentado e, eventualmente ao longo do dia, realizar algum movimento mais intenso por alguns minutos (Snaks Exercises), também são formas de se exercitar. Para alguém que passou meses
evitando atividades, voltar a caminhar alguns minutos pode representar uma
enorme vitória. Depois podem vir mais alguns minutos. Depois uma pequena subida.
Depois um exercício de força. E assim, pouco a pouco, o corpo recupera
capacidade e a pessoa recupera autonomia.
É importante lembrar, porém, que nem
toda dor deve ser enfrentada apenas com exercício. Dores novas, intensas,
progressivas ou acompanhadas de outros sinais precisam de avaliação adequada. E
pessoas com lesões, doenças ou condições específicas devem receber orientação
profissional para definir o que é seguro e apropriado. O corpo precisa de
movimento — inclusive quando dói Talvez a maior contribuição da ciência moderna
da dor seja justamente nos fazer abandonar duas ideias extremas. A primeira é
pensar que toda dor significa necessariamente dano. A segunda é acreditar que
qualquer dor deve ser ignorada. Nenhuma das duas é verdadeira. A dor é real.
Deve ser respeitada e investigada quando necessário. Mas, em muitas situações de
dor persistente, o medo de se movimentar pode acabar sendo tão limitante quanto
a própria dor. E quanto mais tempo passamos parados, mais difícil pode parecer
voltar.
Por isso, a pergunta talvez não deva ser apenas: “O que posso fazer para
a dor desaparecer?” Mas também: “O que consigo fazer hoje para recuperar um
pouco da minha capacidade de me movimentar?” Pode ser uma caminhada curta.
Alguns exercícios. Uma atividade doméstica. Brincar. Alongar-se. Subir escadas.
Levantar-se mais vezes durante o dia. O importante é começar — dentro dos
limites de segurança e, quando necessário, com orientação profissional. Porque
movimento não é apenas uma maneira de gastar calorias, ganhar força ou melhorar
o condicionamento físico. Movimento é também uma mensagem. Uma mensagem enviada
ao cérebro de que o corpo continua capaz. E, para quem vive com dor persistente,
talvez essa seja uma das mensagens mais importantes que podemos reaprender a
transmitir: “Eu não preciso ter medo de todo movimento. Meu corpo ainda pode se
mover, se adaptar e recuperar sua confiança.”
A dor pode fazer parte da
história. Mas ela não precisa ser o ponto final.
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