E não existe apenas uma maneira de fazer isso. O organismo utiliza três sistemas diferentes de fornecimento de energia, que trabalham simultaneamente, mas com predominância desigual conforme a intensidade e a duração do esforço.
1. O sistema mais rápido: ATP e fosfocreatina > Nos primeiros segundos de um esforço muito intenso — como levantar uma carga elevada, realizar um salto ou fazer uma arrancada/tiro — o músculo utiliza principalmente o ATP já disponível e a fosfocreatina, uma reserva energética de rápida utilização, armazenada na própria musculatura. É como um sistema de emergência: fornece energia rapidamente, mas sua capacidade é muito limitada.
Por isso, predomina basicamente nos esforços máximos/extremos e muito curtos. Esses dependem especialmente desse sistema. Em uma série de musculação com poucas repetições (até 8 ou 10) e carga elevada, por exemplo, ele tem papel predominante. E há uma característica interessante: como esse sistema fornece energia rapidamente e não depende diretamente da quebra de grandes quantidades de glicose, não produz substratos que está associado àquela sensação intensa de queimação que costuma aparecer nas séries mais longas.
2. Quando o esforço se prolonga: usamos a glicólise > À medida que o exercício continua, aumenta a participação da glicólise, processo pelo qual o organismo quebra glicose/açúcar — proveniente principalmente do glicogênio muscular (reserva da glicose dentro do músculo) — para produzir ATP rapidamente. Esse sistema consegue fornecer energia ainda em uma velocidade elevada, sendo especialmente importante durante esforços intensos que duram dezenas de segundos a poucos minutos. Na musculação, por exemplo, em séries que se consegue sustentar repetições acima de 12 repetições.
É aqui que muitas pessoas começam a perceber aquela famosa “queimação” muscular, principalmente quando a série (em repetições altas) se aproxima da fadiga ou da falha (momento que não se consegue mais executar uma repetição). Mas existe um detalhe importante: durante muito tempo, essa sensação foi atribuída simplesmente ao acúmulo do “ácido lático”. Um subproduto do metabolismo da glicose. Hoje sabemos que essa explicação é simplista e muito reducionista. O lactato não é o vilão!
Ele é produzido durante o metabolismo da glicose e pode, inclusive, ser utilizado posteriormente como combustível por outros tecidos e pelo próprio músculo, sendo ressintetizado novamente em glicose no fígado. É uma importante via energética para exercícios muito prolongados.
O aumento da acidez muscular durante exercícios intensos está relacionado principalmente à elevada produção e ao acúmulo transitório de íons de hidrogênio (H⁺) associados ao metabolismo energético.
É principalmente essa alteração do ambiente químico dentro da musculatura (PH), entre outros fatores menores, que contribui para a sensação de ardência e para a redução temporária da capacidade de produzir força (fadiga).
3. O sistema aeróbio: energia com participação do oxigênio > O terceiro sistema é o aeróbio, que utiliza oxigênio para produzir ATP a partir de carboidratos e gorduras. É o sistema mais importante quando precisamos sustentar esforços por períodos prolongados, como caminhar, correr, pedalar ou realizar uma atividade física de longa duração ou ainda nas atividades mais leves do cotidiano e ainda durante o período de recuperação das atividades corporais mais intensas.
Mas ele também participa dos exercícios de musculação. Mesmo durante uma sessão de treinamento de força, o sistema aeróbio contribui para a recuperação entre as séries, ajudando a restaurar as reservas energéticas e a preparar o organismo para o próximo esforço.
Então, por que algumas séries “queimam” mais do que outras?
Uma série curta, pesada e próxima do máximo tende a depender proporcionalmente mais do sistema ATP-fosfocreatina. Que libera muito poucos íons hidrogênio. Já uma série mais longa, especialmente quando realizada próxima da falha muscular, aumenta a participação da glicólise, aumenta em muito a produção dos íons hidrogênio (H⁺) e produz uma série de alterações metabólicas (diminuindo o pH*) associadas àquela sensação característica de ardência.
* Quando a concentração de H⁺ aumenta, o pH cai — isso, por definição, é acidose (ou, no caso do músculo em exercício, mais precisamente "acidose metabólica local" ou queda transitória do pH intramuscular).
Por isso, de maneira simplificada:
Esforços muito curtos e intensos → maior predominância do sistema ATP-fosfocreatina.
Esforços intensos e mais prolongados → maior participação da glicólise.
Esforços muito prolongados e na recuperação → maior participação do sistema aeróbio.
Mas importante: não existem “interruptores” que ligam um sistema e desligam outro. Os três sistemas estão funcionando o tempo todo. O que muda é a contribuição relativa (para um ou outro momento) de cada um a depender do tipo do exercício, da sua intensidade e duração.
E depois que a série termina?
A recuperação começa imediatamente. O organismo trabalha para restaurar as reservas de fosfocreatina, reorganizar o equilíbrio químico da musculatura e remover ou reutilizar metabólitos produzidos durante o esforço. O lactato, por exemplo, pode ser transportado para outros tecidos e utilizado como fonte de energia ou convertido novamente em glicose e armazenado no fígado ou no músculo (em forma de glicogênio).
É justamente por isso que o intervalo entre as séries é tão importante.
Descansar não significa “não fazer nada”; significa permitir que o organismo recupere parte da capacidade necessária para produzir força novamente para realizar com o máximo de eficiência possível um novo desafio (mais uma série, por exemplo).
E sentir o músculo queimar não significa necessariamente ter treinado melhor.
Essa talvez seja uma das informações mais importantes para quem pratica musculação: A sensação de queimação pode indicar que a musculatura está submetida a um esforço metabólico elevado, mas ela não é um marcador absoluto de eficiência, qualidade ou resultado do treinamento.
Uma série pode ser extremamente eficiente para desenvolver força ou promover adaptações musculares sem produzir uma grande sensação de ardência. Principalmente em músculos já muito adaptados pelo treino. Pois são mais eficientes na remoção ou tamponamento** de íons hidrogênio e reutilização do lactato. Da mesma forma, uma série que “queima muito” não significa automaticamente que foi melhor. Pode significar que este músculo ainda não dá conta de suportar, com eficiência, essa intensidade de treino.
** O tamponamento muscular é o mecanismo de defesa que o corpo usa para neutralizar o acúmulo de íons hidrogênio (H+) e evitar que o músculo fique excessivamente ácido, retardando a fadiga e permitindo que você mantenha o rendimento no exercício por mais tempo. O organismo utiliza dois sistemas principais de tamponamento e que se relaciona diretamente com o nível do treinamento e controle da dieta (ou de suplementação) que cada um se encontra. Mas isso será assunto para um outro artigo.
O que realmente importa é o conjunto: intensidade adequada, volume, progressão, recuperação, técnica, regularidade e objetivo do treinamento.
O corpo humano é muito mais sofisticado do que a ideia de que “se está queimando, está funcionando”.
A próxima vez que seus músculos começarem a arder durante uma série, portanto, lembre-se: não é simplesmente “ácido lático queimando o músculo”. É o resultado de uma complexa interação entre metabolismo energético, produção de metabólitos, alterações químicas e fadiga muscular.
E essa capacidade de produzir energia, tolerar o esforço e se recuperar também pode ser treinada.
Movimento é energia. E compreender como o organismo produz essa energia é compreender um pouco melhor a extraordinária capacidade de adaptação do nosso corpo.
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